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Psicologia e o descontrole alimentar
Silvia Regina Dias - Psicóloga Clínica

Diversos relatos, com muita similaridade, são repetidos em consultório por pessoas que estão insatisfeitas com o próprio corpo e que de várias maneiras tentaram se encaixar no estereótipo social, porém sem resultados permanentes e positivos: a idealização de um corpo magro e esbelto para se sentirem antes de tudo aceitos no seu ambiente e estar bem consigo.

Além do desejo constante de se apresentar magro, o que mais estas pessoas teriam em comum? Possivelmente o vazio interior transmitido através de um ou vários sentimentos constantes e excessivos no dia a dia: tristeza, alegria, solidão, gratidão, proteção, frustração, etc. Talvez utilizem, sem saber, o alimento como justificativa para aliviar aquilo que incomoda, pois não sabem simplesmente se expressar e nem como lidar com seus sentimentos e com as dificuldades diárias. O excesso ou a escassez de alimentação seria a válvula de escape.

Estariam algumas destas pessoas conscientes deste ciclo vicioso: pensamentos negativos x sentimentos ruins x comportamentos indesejáveis e incontroláveis? Ainda hoje existem alguns julgamentos de que o descontrole alimentar, seja na compulsão ou na rigidez insuficiente de uma dieta é algo limitado à ausência de educação no ambiente familiar ou preguiça do indivíduo em se tomar uma atitude radical para reverter o quadro.

Só quem vive a situação de obesidade ou da distorção da própria imagem corporal, no caso da anorexia e bulimia, sabe da dificuldade em mudar um comportamento indesejável, estando sujeito a tantas críticas negativas, pressões e preconceitos.

Estas pessoas idealizam a mudança, mas em geral não possuem o conhecimento interno dos motivos que a fazem desistirem do seu propósito. Os pensamentos distorcidos e a falta de informações e orientações médicas seguras sobre as conseqüências das repetições destes comportamentos inadequados são reforçadores para a manutenção do ciclo vicioso. Apropriar-se do seu real desejo e objetivo, tomar conhecimento de si, dos seus sentimentos bons ou ruins e observar o próprio comportamento, farão com que não sejam incluídas nas estatísticas do "engorda e emagrece" e dos casos fatais por desnutrição.

Muitas vezes o descontrole alimentar representa uma ausência, uma necessidade de preenchimento, mas ligada aos modelos de interação desenvolvidos principalmente entre a mãe e seu bebê, e depois na convivência familiar ao longo do seu desenvolvimento.

O primeiro e principal contato que temos que supre necessidade, acolhimento, saciedade e prazer é após o nascimento através da amamentação. É nesta fase oral e na relação da mãe com o bebê que surge a troca contínua das necessidades principais do novo ser.

Ainda criança, fomos totalmente dependentes de nossos pais ou dos nossos cuidadores para educação, alimentação, ajuda e amor. Eles representam os nossos modelos de comportamento, mas nos transmitiram, inconscientemente, padrões negativos de comportamentos herdados da sua família de origem. Buscando sempre por aprovação dos nossos protetores, aprendemos os seus padrões negativos os quais adotamos, repetimos ou rebelamos inconscientemente pela vida.

Acredita-se que, na impossibilidade desta relação, na falta da pessoa que cuida, ou no excesso desse cuidado (superproteção) o sujeito buscará no mundo externo um outro substituto das necessidades afetivas do seu mundo interno. Portanto, esta carência faz com que algumas pessoas desenvolvam mecanismos de defesa para tentar suprir esta e possivelmente outras decepções.

Estes mecanismos podem se manifestar através do excesso ou rígido controle do consumo de comida, que pode se apresentar sozinho ou em conjunto com uma ou mais compulsões (por exemplo: trabalho, compras, álcool, drogas, jogos, remédios, sexo, ginástica, etc.)

Assim sendo, a procura excessiva por comida que leva a obesidade e outras doenças pode significar uma forma de manifestação de conflitos e vivências assim como a expressão de uma dinâmica psíquica com a função de auto-proteção. Considera-se também que a auto-punição do não se alimentar e do purgar são também manifestações dos conflitos psíquicos existentes.

Possivelmente não há uma psicopatologia típica para os transtornos alimentares e obesidade, mas fatores como separação conjugal, mudanças na rotina (cidade, escola, trabalho), conflitos encobertos, dificuldades de expressão de sentimentos, regras familiares muito rígidas ou muito liberais, depressão materna, desagregação familiar, superproteção, relação simbiótica podem contribuir para o desencadeamento destas doenças causando no sujeito depressão, irritabilidade, distimia, angústia, transtorno de pânico, fobia social e outros.

A Psicologia, como ciência, possui recursos saudáveis de orientação e possibilidades de mudança nos tratamentos da obesidade, compulsões e outros transtornos alimentares, proporcionando ao psicólogo especializado, a habilidade da dinâmica da terapia cognitiva comportamental, considerando além da história clínica, o contexto familiar do sujeito, seus padrões comportamentais para entender em que medida se deu a construção dos sintomas.

A importância de uma dinâmica familiar saudável é comprovada quando observamos que em muitos casos de famílias disfuncionais, a criança é incentivada a permanecer gorda, pela oferta de alimentos como prêmio, como calmante, como distração e até mesmo pelo tipo de cardápio diário da família onde frequentemente estão presentes alimentos com alto valor calórico.

Em se tratando de adolescentes e crianças, a participação dos pais no processo psicotérapico trará a possibilidade de perceberem as contradições dos ensinamentos, das falas direcionadas ao filho no dia a dia.

Para isto é importante o acolhimento e acompanhamento multiprofissional onde endocrinologista, nutricionista, psicólogo, psiquiatra e cuidador físico tenham papéis distintos, mas podem e devem trabalhar em conjunto para a obtenção de um resultado positivo e duradouro.

Já se comprova que a utilização da psicoterapia cognitivo-comportamental paralela ao atendimento clínico é válida para que o indivíduo entenda a construção da sua história e consiga através da reestruturação positiva do pensamento, reconhecer os sentimentos que determinarão o seu comportamento em várias situações da vida. Além disso, possibilita um comprometimento consigo mesmo quanto ao tratamento endocrinológico e nutricional, pois assume a responsabilidade por suas escolhas e mudanças.

Remodelar o pensamento e reeducar as ações é o grande desafio. Tão importante quanto fazer o paciente entender e distinguir as suas necessidades fisiológicas de alimentação das necessidades psicológicas de afetividade.

 
       

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